Pensa no amortecedor de um carro: ele tem uma buchinha de borracha que absorve o impacto para que o movimento flua suavemente. Quando essa borracha envelhece e endurece, o amortecedor para de fazer bem o seu trabalho. No ouvido existe uma peça com papel parecido: o estribo, o menor osso do corpo humano, encaixado na janela oval que liga o ouvido médio ao ouvido interno. Ele precisa se mover livremente, como uma dobradiça bem lubrificada, empurrando os líquidos do ouvido interno a cada som. Na otosclerose, um processo anormal de remodelação óssea deposita osso ao redor dessa articulação e prende o estribo no lugar — é a "buchinha" endurecendo de fato, dentro do ouvido.

Otosclerose: o que é e o que causa

É uma doença relativamente comum, ainda que pouco conhecida do público: estima-se que afete entre 0,3% e 0,4% da população branca, respondendo por cerca de 5% a 9% de todos os casos de perda auditiva e por até um quinto das perdas auditivas do tipo condutivo. Atinge mais mulheres do que homens, costuma começar entre os 20 e os 40 anos, e até 40% dos pacientes têm histórico familiar da doença — sinal de que existe um componente genético relevante.

Sintomas de perda auditiva na otosclerose

O quadro típico é uma perda auditiva progressiva, muitas vezes unilateral no início e bilateral com o tempo, frequentemente acompanhada de zumbido e, em alguns casos, tontura. A sensação de ouvido tapado (plenitude auricular) também é uma queixa comum. Não é algo que aparece de um dia para o outro — é justamente essa evolução lenta que faz muita gente adiar a consulta.

Diagnóstico de otosclerose: audiometria e exames

O diagnóstico combina história clínica, exame otoscópico (que costuma ser normal, o que confunde o paciente) e audiometria completa, avaliando tanto a condução aérea quanto a óssea. Um achado clássico associado à otosclerose é o chamado "entalhe de Carhart" — uma queda característica na condução óssea perto de 2000 Hz. É um indício útil, mas a literatura é clara: sozinho, ele não fecha diagnóstico — por isso a avaliação é sempre conjunta, e não baseada em um único exame. Em casos selecionados, a tomografia computadorizada dos ossos temporais ajuda a mapear a extensão do processo antes de uma decisão cirúrgica.

Tratamento e reabilitação auditiva: cirurgia, aparelho ou medicação

Um ponto importante para entender antes de tudo: a otosclerose não tem cura. Nenhum tratamento disponível reverte o processo de remodelação óssea em si — o que existe são formas de reabilitar a audição afetada por ele. E é exatamente aí que aparelho auditivo (AASI) e cirurgia se encontram: são dois caminhos diferentes para o mesmo objetivo, a reabilitação auditiva, não uma opção "melhor" e outra "pior" em abstrato. Qual deles faz mais sentido depende do grau da perda, do tipo de perda (condutiva ou com componente sensorioneural) e das expectativas de cada paciente.

Na cirurgia — a estapedotomia —, uma microprótese substitui a função do estribo fixado, devolvendo a mobilidade à cadeia ossicular. Na maioria dos casos, é um procedimento eletivo: a decisão de operar não é puramente técnica, é também uma escolha compartilhada entre médico e paciente, pesando o grau da perda auditiva, o impacto na rotina e as expectativas de cada um. Quando indicada, tem taxas de sucesso relatadas entre 70% e 95% na literatura, com baixo índice de complicações — a mais comum é uma tontura passageira nos primeiros dias. Ainda assim, como toda cirurgia, carrega riscos, e por isso a decisão de quando (ou se) operar precisa ser individualizada, caso a caso.

Existe também uma via de tratamento clínico medicamentoso — bisfosfonatos, como risedronato ou alendronato —, estudada principalmente nos casos com componente sensorioneural em progressão, na tentativa de estabilizar a perda auditiva. É importante ser honesto sobre o status dessa opção: revisões sistemáticas recentes apontam evidência ainda insuficiente para recomendar seu uso rotineiro, reservando-a a casos selecionados e sempre sob avaliação médica.

Otorrino ou otologista: por que o acompanhamento especializado é essencial

A otosclerose é progressiva e crônica, e cada caso evolui de um jeito — o que é a melhor conduta para um paciente pode não ser para outro. Só o otorrinolaringologista, com ênfase em otologia, acompanhando a evolução da audiometria ao longo do tempo, consegue identificar o momento certo — se ele existir — de considerar a cirurgia, ajustar um aparelho auditivo ou avaliar uma via medicamentosa. Por isso, se você sente o ouvido tapado ou percebe que a audição vem piorando aos poucos, o primeiro passo não é decidir sozinho, tampouco esperar demais: é procurar um otorrino e manter o acompanhamento regular — essa consulta especializada, não uma escolha feita em casa, é o que define o melhor caminho pra cada caso.

Percebendo perda auditiva ou zumbido?

Ouvido tapado, zumbido ou audição piorando aos poucos são sinais que merecem avaliação — quanto antes, mais opções de tratamento. Agende uma consulta no consultório OtoSinus, em Maceió.

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Referências:
Sagar PR, et al. Otosclerosis and Measles: Do Measles Have a Role in Otosclerosis? A Review Article. Cureus. 2020;12(8):e9908.
Lancer H, et al. The Epidemiology of Otosclerosis in a British Cohort. Otol Neurotol. 2019.
Wegner I, et al. Pure-tone Audiometry in Otosclerosis: Insufficient Evidence for the Diagnostic Value of the Carhart Notch. Otolaryngol Head Neck Surg. 2013;149(4):528-532.
American Academy of Otolaryngology–Head and Neck Surgery. Clinical Indicators: Stapedectomy/Stapedotomy. entnet.org.
Journal of Laryngology & Otology. Hearing results after stapedotomy for otosclerosis: comparison of prosthesis variables. Cambridge Core, 2021.
Zimmerer RM, et al. Bisphosphonate therapy in otosclerosis: A scoping review. Laryngoscope Investig Otolaryngol. 2022.
Systematic review of the effectiveness of bisphosphonates for otosclerosis. PubMed, 2022 (PMID 35213475).