Em 7 de maio de 1824, em Viena, estreava uma das maiores obras já compostas: a Nona Sinfonia de Beethoven. Foi a primeira sinfonia da história a incorporar voz humana e coro em seu movimento final — o "Ode à Alegria" que hoje é hino da União Europeia e símbolo universal de fraternidade. Ao final da apresentação, o público explodiu em aplausos. Beethoven, de costas para a plateia, não ouviu nada. Precisou que uma cantora o virasse de frente para que ele visse, sem ouvir, a ovação de pé.
O silêncio por trás da obra-prima
Beethoven começou a perceber os primeiros sinais de perda auditiva por volta dos 26-28 anos, ainda no fim dos anos 1790. A perda foi progressiva: por volta de 1814-1818, na casa dos 44 anos, ele já era considerado praticamente surdo, comunicando-se por meio de "cadernos de conversação" nos quais amigos e visitantes escreviam para que ele lesse. É nesse período de surdez avançada que ele compôs a Nona Sinfonia.
Vale um parênteses de honestidade histórica: pesquisas musicológicas recentes, baseadas nesses cadernos de conversação, sugerem que Beethoven talvez ainda conservasse algum resíduo de audição no ouvido esquerdo até pouco antes de morrer, em 1827 — ou seja, a perda pode não ter sido absolutamente total como a lenda popular conta. Isso não diminui em nada o que ele fez: mesmo nesse cenário revisado, ele compôs e regeu uma das obras mais complexas do repertório orquestral com uma audição drasticamente reduzida, dependendo essencialmente de memória, técnica e imaginação musical para "ouvir" internamente o que escrevia.
Como é possível compor sem ouvir
Esse ponto tem respaldo em neurociência, não é só força de vontade. Estudos com ressonância magnética funcional mostram que, quando um músico treinado imagina uma música — sem nenhum som externo —, o córtex auditivo se ativa de forma muito parecida com o que acontece durante a escuta real. Existe até um estudo específico que cita o próprio Beethoven como exemplo histórico desse fenômeno, ao lado de outros compositores conhecidos por "ouvir" a música internamente antes de escrevê-la.
Ou seja: anos de treinamento técnico constroem, no cérebro, uma representação interna do som tão robusta que ela pode ser acessada e manipulada mesmo quando a via auditiva periférica (o ouvido em si) já não fornece mais informação de fora. É a mesma lógica, guardadas as proporções, por trás de qualquer reabilitação auditiva bem-feita: o cérebro precisa de estímulo e treino para manter — ou reconstruir — sua capacidade de processar som.
O que isso não significa
A história de Beethoven não é um convite para normalizar a perda auditiva não tratada, nem para romantizar o isolamento — pelo contrário: as próprias cartas dele descrevem angústia profunda com o afastamento social que a surdez lhe impôs. A mensagem que fica não é "a perda auditiva não importa". É outra: um diagnóstico de perda auditiva descreve uma condição física, não mede o valor, a inteligência ou a capacidade de realização de ninguém. E, diferente de Beethoven — que viveu numa época sem nenhum recurso terapêutico real —, hoje existem diagnóstico preciso, aparelhos auditivos personalizados, cirurgias e acompanhamento especializado capazes de manter alguém conectado ao som, e não isolado dele.
O que fica
Beethoven mostrou que a genialidade não é refém da audição perfeita. Mas ele também mostrou, nas próprias cartas, o preço emocional de enfrentar isso sozinho, sem tratamento, num tempo em que não havia alternativa. Se você ou alguém próximo percebe queda na audição, a melhor homenagem a essa história não é esperar em silêncio — é procurar avaliação e cuidado, e seguir criando, ouvindo e se conectando com o mundo o quanto for possível.
Percebendo queda na audição? Não espere — agende uma avaliação.
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Referências:
Albrecht T. apud Classic FM. Beethoven "was not completely deaf" at the premiere of his Ninth Symphony, new evidence suggests. 2023.
History.com. Beethoven's Symphony No. 9 debuts, May 7, 1824.
PBS News. What caused Beethoven's deafness? 2019.
Bailes F, et al. Musical imagery depends upon coordination of auditory and sensorimotor brain activity. Scientific Reports. 2019.
Liu ZM, et al. Musical Imagery Involves Wernicke's Area in Bilateral and Anti-Correlated Network Interactions in Musicians. Scientific Reports. 2017.